segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Avó Maria


Sinto saudades. Sinto saudades do pouco provável: do sabor da sua comida. Do travo a azeite da sopa amarela com bocadinhos de nabiça. Dos carapaus gigantes que saíam da grelha salpicados de carvão e chegavam à mesa a escaldar numa travessa de alumínio. Das fatias de pão, milimetricamente partidas, que acompanhavam todas as refeições. Das laranjas descascadas no final do almoço (ao jantar não podia ser porque a avó Maria dizia sempre: “Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata, filha!”). Do borrego de Natal acompanhado de arroz de passas e batata no forno. Dos chocolates Kinder, dos sugos e das amêndoas de chocolate escondidos sempre na mesma porta do móvel de mogno da sala. Dos gelados Magnum, geralmente de amêndoa, guardados debaixo dos bifes de porco e das costeletas de novilho na arca congeladora.

Em casa, a avó Maria andava sempre com uma bata azul com lírios e flores ciprestes. Como era gordinha, assentava-lhe na perfeição. Riamo-nos quando eu a tentava vestir e a bata azul me dava três voltas ao corpo. Ríamo-nos quando a avó Maria me apanhava a esconder os papéis do chocolate Kinder atrás do sofá porque não queria ser vista em flagrante pecado capital. Ríamo-nos quando, para se vingar, ia buscar o seu chocolate preferido – o KitKat – e dizia que não me dava nem um bocadinho e eu acabava sempre por comer mais de metade. Ah e ríamo-nos também, mas aí à gargalhada, quando a avó Maria devorava um gelado inteiro em menos de um minuto. Durante muitos anos tentei imitá-la: tirava o papel do gelado, agarrava o pau de madeira e tentava dar uma trinca até quase um quarto. Acabava invariavelmente com a mão direita à frente da boca, uma terrível dor de dentes. Fascinada pela velocidade com que a avó Maria dava aos dentes (que vim a saber serem de plástico) e fazia desaparecer o gelado.


Da avó Maria recordo outras coisas. Os olhos verdes gigantes, que sempre lamentei não ter herdado. O cabelo loiro pintado, fraquinho, fraquinho, que possuo agora em fotocópia. As botas de salto alto que me comprava todos os anos pela altura do Natal – talvez seja a responsável pelo meu gosto compulsivo por sapatos. Da mítica frase: “Deita fora filha, deita fora", sempre que estava constipada e tinha expectoração no nariz. Da avó Maria, recordo muitas outras coisas. Mas dessas não quero falar porque já não era bem a avó Maria. Lembro-me mas logo a seguir esqueço. Porque quero e porque quem manda em mim sou eu. E depressa volto a ficar com o sabor da sua comida na boca. A mesma que não faço a mínima ideia de como se faz mas que visualizo com languidez. Quando era criança, ela não me deixava chegar perto do fogão, da faca, nem sequer do pano da loiça (objecto perigoso, este). Na adolescência, não escapei da arrogância parva da idade e nunca quis aprender. Mas se calhar foi melhor assim. A avó Maria será sempre uma lenda para mim. Os seus sabores continuam vivos. Lembro-me deles todos os dias. Quem sabe se não voltarão. Numa manhã qualquer de nevoeiro.

1 comentário:

  1. Felizmente para a minha meninice também eu tive uma avó Maria... à qual devo o nome... seria óptimo se todas as crianças pudessem sentir o amor de uma avó assim. Infezlimente para a minha adolescência e juventude... tive-a pouco tempo perto de mim...

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